Homenageados - 4º Curta Santos

Não somos europeus nem americanos do norte, mas destituídos da cultura Original, nada nos é estrangeiro, pois tudo o é.

A penosa construção de nós mesmos se desenvolve na dialética rarefeita entre o não ser e o ser outro.

O filme brasileiro participa do mecanismo e o altera através da nossa incompetência criativa em Paulo Emilio Sales Comes in Cinema Trajetória no subdesenvolvimento.
SP: Paz e Terra. 1996

O impacto causado pela chegada do Curta Santos no mundo cultural do litoral é inegável. Revitalizou um movimento quase adormecido, mantido apenas pela memória e pelo respeito ao Maurice, e seu amor ao cinema.

Essa foi nossa fonte de inspiração para a criação deste espaço especial, que privilegia a produção do litoral paulista, e hoje vemos na região diversas iniciativas que aguçam o olhar, estimulam o estudo.

Na edição deste ano, o Curta Santos resolveu prestar uma grande homenagem ao cinema produzido em São Paulo. Tivemos a inscrição de quase 300 obras produzidas entre capital, interior e litoral e contamos com uma grande união de todos os espaços cinematográfico e das universidades, que estarão recebendo nossas mostras oficiais e oficinas.

Tudo convergindo em um salutar encontro em um momento auspicioso, e nele propomos como objetivo: o pensar, o produzir e o fazer cinema.

Impõe-se então reflexões sobre questões fundamentais: A tradição que se revela na própria existência do movimento de cinema paulista e na primavera dos curtas metragens e as rupturas advindas da diversidade de linguagens do audiovisual paulista.

Neste momento somos o foco de um diversificado movimento de cinematografia que abarca em sua história ricos e fecundos períodos que influenciaram todo o cinema brasileiro. Do período das produtoras Mari Stela e Vera Cruz, passando pelos filmes do genial caipira e do reverenciado terror sangrento; do musical a pornochanchada; do experimental a vanguarda pura... Enfim o jeito paulista de se fazer cinema.

Neste contexto, Santos devia um encontro em homenagem a Chico Botelho e ao cinema revolucionário. E nesse uni verso único é importante que este festival tenha Como meta fazer com que os produtores da nossa região tenham em mente o estudo, o treinamento do olhar e que numa necessária sinergia, iniciem a conexão de nosso trabalho aos setores produtivos e exibição da capital e do interior.

É ver e abrir-se, olhar, enxergar, estudar, rever, ponderar, discutir brigar, lutar, conceituar, unir..

Agora, vamos curtir o festival!

Toninho Dantas - Diretor Curta Santos

Tema - A aventura do cinema paulista
Cinema Paulista: o Desafio de Emancipação

Depois de mais de uma década de um novo ciclo virtuoso, chamado de Retomada, o cinema brasileiro ainda procura se estabelecer como indústria cultura rentável. Ao não conseguir desatar o no górdio da distribuição, nem encontrar formas de financiamento de marcado que não sejam subsidiadas pelas leis de incentivo, mas com quase 350 filmes concluídos, indicações para o Oscar e recuperação de prestígios internos, produzir filmes no Brasil ainda não é um negócio lucrativo.

Dentro deste contexto de crescimento e crise (perene), al ternando dois tipos de produção, uma de vocação popularesca, que tem como objetivo primordial o diálogo com a classe média condicionada ao produto americano (Globo filmes aliada as majors, distribuidores estrangeiros que operam no pais) e, outra artesanal e diversificada, responsável pela grande massa de filmes, sucessos de crítica, mas de baixa densidade de público, o cinema paulista se destaca como o segundo pólo produtor nacional.

Do ponto de vista estritamente estético, a cinematografia da retomada não e particularmente original. Os filmes conseguiram superar os estigmas técnicos e do conteúdo, hoje não escutamos mais nas ruas o surrado comentário que o cinema brasileiro tem som ruim e só mulher pelada na tela. Mas, a linguagem ficou abrigada no melodrama narrativo, que oscila entre 0 naturalismo televisivo e o realismo internacional dominante. Não criamos uma nova onda. A referência extrema do atual cinema latino americano e o instigante cine argentino, uma produção hoje já apreciada no mercado índice nacional . Em geral, as escassas provocações no plano estético do cinema brasileiro estão nos filmes realizados por diretores paulistas da nova geração, que vieram do curta-metragem, da publicidade e do vídeo-arte e, mais recentemente também nas obras dos pernambucanos e baianos radicados no eixo Sampa-Rio.

Uma das singularidades da retomada e a renovação dos quadros cri adores do cinema. Com destaque para as mulheres, produtoras e diretoras, raridade nos anos 80. Além do aparecimento de três novos pólos de produção: Porto Alegre, Brasília e Nordeste.

A produção de São Paulo tem peculiaridades inerentes a sua história e ao seu meio. Uma rede de pequenas estruturas de produção trabalhando de forma semi-caseira, filmes com temáticas urbanas e fortes traços autorais, uma visão acida e da crítica social.

Este micronúcleo de realizadores (produtor e diretor ao mesmo tempo) espalhados pela urbe, vivem um processo de profissionalização crescente enquanto outros mais rarefeitos as mudanças conjunturais, encaram uma acelerada extinção.

Os Paulistas enfrentam ainda grandes dificuldades na relação com distribuidores e exibidores tradicionais que refletem na pouca inserção de seus produtores no mercado e números de bilheteria (guardadas as conhecidas exceções, Cidades de Deus e Carandiru). Assim, o cinema paulista, um latifúndio sem coronéis, convive hoje com três gerações em razoável sintonia e tenta construir uma política pública de apoio ao seu desenvolvimento industrial, tanto no Estado como a Prefeitura.

A encruzilhada do futuro

A grande questão e que, com exceção de meia dúzia de produtores amparadas.

Por sua receita publicitária ou inserção no mercado internacional, estas pequenas estruturas de produção são, na maioria, escritórios - sanfonas que incham bissexualmente, quando se inicia a pré-produção de um filme e voltam a se tornar minúsculas células, após as filmagens.

Esta situação precisa ser atacada com um programa de desenvolvimento de largo prazo que viabilize empresas de médio porte (não e desejável, em detrimento da diversidade, pensar em estruturas de grandes portes no Brasil). E seu Know-how e talento em unidades que passem a filmar e finalizar pelo menos dois projetos ao mesmo tempo.

Neste sentindo, só um amplo programa estratégico - baseado no mérito artística dos filmes (valor cultural) e nos resultados de bilheteria (valor de marcado) pode mudar a atua 1 situação de miserabilidade estrutural.

Não é utopia nem loucura pensar um projeto cinematográfico estruturante mais ousado para São Paulo. Ao contrário, e de se admirar que o estado mais rico da nação, detentor do maior ICMS do pais e de um orçamento público de RS 80 bilhões em 2006, esteja ainda nos primórdios do desenvolvimento de sua indústria audiovisual.

Este ano, tendo a frente da Secretaria de Estado da Cultura o cineasta João Batista de Andrade, foi criado o PAC (Programa de Ação Cultural). O cinema e o audiovisual receberão pela primeira vez o apoio direto de recursos do tesouro, através de programas regi dos por adi tais públicos. A nova lei de incentivo, baseada no ICMS, com alguns aprimoramentos, promete também alterar o panorama a partir de 2007. E está garantindo a manutenção do Programa de Apoio ao Cinema Fiesp/Minc, ambos baseados na renúncia fiscal das empresas.

Iremos finalmente alçar maiores altitudes na edificação do projeto industrial só cinema paulista? Ou reproduzi remos os erros que levaram a paralisação do Programa PIC - TV na da década passada? Teremos uma visão estratégica para vencer nossas próprias limitações? Iremos articular uma política de produção de filmes autossustentáveis de médio orçamento, de qualidade e público, ou permaneceremos dependentes da captação via incentivo fiscal?

Só o tempo dirá, mas nunca as condições foram tão propicias para avanços importantes: bom material humano e tecnológico, produção de qualidade e prestigio amadurecimento profissional e um consenso civilizado entre os pares. Depende só de nós mesmos. A ver.

Toni Venturi - Produtor e diretor
Vice-presidente da APACI - Associação paulista de Cineastas

Troféu Lilian Lemmertz — Eliane Lage

Troféu Chico Botelho — Carla Camurati

Conheci Carla num momento em que eu estava e dúvidas: de quem seria o papel de Pagú? Eu havia convidado o Thales. Carla leu o roteiro me ligou para dizer que era lindo. Assim foi o nosso primeiro contato. Fui ver um filme dela e vi o talento, o carisma.

Ela era uma mulher de cinema, a câmera gostava dela. Quando ela voltou da Europa tivemos um encontro muito feliz e fizemos o filme.

Uma excelente profissional, que me ajudou muito, pois a grande atriz e mulher que ela e, entendia muito bem esta PACU, por quem sou apaixonada.

As coisas que ela não entendia, pela sua própria idade, eu explicava e fomos até o fim.

Tenho certeza que ela ganhou os prémios de atriz por puro mereci mento e eu me sinto um pouco responsável por seu sucesso, agora como diretora.

Lembro de um dia em que filmamos no Dops: ela chorou e perguntou se foi assim mesmo, se jogavam as pessoas de bem naqueles cubículos imundos, celas horríveis. Fiquei muito emocionada e disse que era assim mesmo.

Trabalhamos e contracenamos juntas. Havia uma química forte entre ela e eu, como duas atrizes e como atriz e diretora. Deu tudo certo.

Quando ela fez o seu primeiro curta-metragem, trabalhei como atriz e sabia que ela iria longe, pois além de talento e inteligência, ela tem humor e sonhos.

É uma mulher experiente, que conhece a vida. Carla é puro talento.

Tenho a maior admiração por ela e não teria em mente outra PACU que não fosse a Carla. Ela é o nosso felininho de saias: ousada, batalhadora e muito crítica.

No mais, até sempre.

Norma Bengell

Patrono - Ney Latorraca

Ney Latorraca: Um ser especial

Ao evocar o nome de Ney Latorraca, todos os rostos brasileiros de muitas gerações se iluminaram com um sorriso de satisfação e alegria.

Associamo-lo imediatamente ao humor representado pelo trabalho de muitos anos no teatro, na TV e no cinema.

Mas Ney e um ator surpreendente, múltiplo e de requintada seriedade .

Com a mesma dedicação com que se entregou a comedia, formou-se na Escola de Arte Dramática de São Paulo; representou clássicos da Dramaturgia universal e brasileira; participou de montagens que revolucionaram tento o teatro quanto o comportamento de Sociedade brasileira.

O seu nome, seja num filme ou numa novela de TV, acrescenta uma garantia de qualidade, como acontece com alguns vinhos exclusivos e nobres.

Sua presença, no casting de quaisquer desses meios onde ele se expressa com a mesma segurança de quem domina suas diferentes linguagens, e também a quem teve o privilégio de tê-lo como companheiro de ofício pode avaliar o quilate dessa troca enriquecedora e definitivamente marcante. Ninguém passa ileso a experiência de compartilhar essa troca divisora de águas: antes e depois de Ney Latorraca.

O seu imenso talento de intérprete só e comparável ao seu humanismo profundo. Seja na extrema distribuição do Seu afeto entre os amigos e os colegas de trabalho, ou na dedicação as causas nobres dos necessitados e desvalidos — que realiza no anonimato de verdadeira entrega.

Preocupado com a cultura e os destinos de seus pais, esqueceu a comedia que o caracterizou e mergulha numa profundidade onde só os santos, os loucos e as crianças sabem transitar perenes, na solidão de interpretação.

Luiz Carlos Lacerda - Cineasta

Homenagem Especial - Chico Botelho

Para falar de Chico Botelho tenho que rebobinar o nosso filme até o ano de 69.

Estávamos na Eca: eu o professor e ele o aluno que, mais tarde, se revelaria um excelente fotógrafo e um promissor diretor. Chico Botelho se formou na primeira turma. Foi um integrante ativo daquela geração que criou um cinema autoral diametralmente oposto à produção comercial da época, na "boca", uma espécie de ponta daquele grupo da Vila Madalena.

O excelente fotógrafo Chico Botelho trabalhou com muitos diretores, como Roberto Santos e Nelson Pereira dos Santos. Comigo, participou como produtor e fotografo do documentário "A Cultura na Época da Independência" produzido pelo Itaú Cultural. O promissor diretor nos deixou um filme inesquecível "Cidade Oculta", realizado em parceria com o musico Arrigo Barnabé, cuja trilha sonora ganhou prémios nacionais e internacionais.

Se Chico Botelho não nos tivesse deixado tão cedo, com certeza, sua Obra teria sido bastante extensa. Ele tinha potencial para tanto. Lamentamos sua ausência precoce. Resta-nos a lembrança das imagens que tão bem fotografou e, sobretudo, sua visão lúcida como dirigente de entidades da nossa seara, pelas quais sempre lutou.

Parabéns ao Curta Santos por homenagear este importante cineasta e amigo.

João Batista de Andrade - Secretário de Estado da Cultura de São Paulo

Homenagem Especial - Chorão

Fazer cinema que fazemos e mais do que um trabalho, e também uma maneira de mostrar o mundo.

Sempre tivemos vontade de fazer um filme de rock and roll, principalmente para representar a atitude e persistência que os jovens tem para enfrentar os dias de hoje.

Conhecer um roqueiro de verdade, que batalhou muito para chegar onde está, foi um aprendizado.

O Magnata conta uma história que vai tirar o fôlego de muitos e fazer com que as pessoas reflitam sobre os temas abordados.

O cinema imita a vida, e a vida imita o Cinema.

Parabéns Chorão, pela sua força e criatividade ao inventar essa história.

Homenagem Especial — São Paulo Film Commission

Com o intuito de atrair produções cinematográficas e audiovisuais para o estado de São Paulo criou-se a São Paulo Film Commission, que vão além e também objetiva assistir às produções no estado, fornecer informações sobre equipamentos e mão-de-obra, levantar locações e facilitar utilização das mesmas como cenário, minimizando a burocracia para procedimentos de filmagens.

Em parceria com grandes festivais e empresas como o Cinemark e o Sesc, a São Paulo Film Commission realiza diversas ações com os propósitos de fomentar, difundir e apoiar a produção cinematográfica e audiovisual no estado.

Junto às universidades e outras instituições de ensino, visa à cri de cursos relacionados ao cinema e ao audiovisual, com 0 objetivo de despertar vocações e capacitar profissionais para a atividade.

Resultante da evolução da Ribeirão Film Commission, projeto idealizado pelo Núcleo de Cinema em 2001, em janeiro de 2005 ganhou autonomia e tornou-se uma Organização Não Governamental legalmente constituída, detentora da marca e domínio www.saopaulofilmcommission.com.br, site em que disponibiliza um banco de imagens e dados dos municípios do estado, bem como informações de apoio à produção cinematográfica e audiovisual.

A São Paulo Film Commission ainda tem muitos planos em mente e, entre eles destacam-se a filiação a AFCI — Association of Film Commission International, a realização de festivais e mostras anuais, que objetivam ampliar sua dimensão, seu público e abrangência e promover a aproximação entre produtoras paulistas, sul-americanas e dos países latinos da Europa, contribuindo à realização de coproduções.

Santos

Cada cidade tem uma diversão preferida. Em umas e andar pelos jardins, em outras e ir a raia, em umas é comer, em outras e o futebol.

Em Santos, mesmo com a concorrência de jardins, praia, restaurantes e futebol, a principal diversão é ir ao cinema.

No ano passado a cidade teve a melhor relação de ingressos/per capita do Brasil. Não é a toa que Santos é o berço de muitos cineastas e atores.

A cidade adora o escurinho do cinema, o cheiro de pipoca no ar, as luzes contando histórias na tela.
Basta olhar as fitas nos fins de semana.

Mas hoje em dia há muitas salas e poucos filmes. Santos, que recebia todos os tipos de histórias, hoje exibe quase só blockbusters (Salve o Posto 4). O resultado é que a cidade tem fome de filmes diferentes, fora do convencional , que não pensam só em bilheteria.

Ainda bem que temos o Festival de Curtas, o pão nosso de cada dia.

José Roberto Torero - Diretor