Homenageados - 5º Curta Santos

Para que servem os festivais?

O Curta Santos trabalha no conceito dos festivais serem janelas abertas á formação de plateia, meio de expressão das novas formas de se fazer cinema, renovando, oxigenando e celebrando também a importância da descentralização da produção nacional.

Mais ainda, são veredas combativas contra a brutal invasão cultural imperialista avassaladora, não democrática e de mão única, que desconfigura e desconsidera outras formas de pensamento e linguagem que não se adequam aos seus interesses econômicos. Os festivais tem caráter de defesa da nossa identidade e Diversidade Cultural e estes encontros são mecanismos que o cinema encontrou para chegarmos á posição de uma produção sólida.

Mas não podemos esquecer que ainda precisamos de condições e apoio para produzir muito mais. É em cima deste vetor que trabalhamos conceitualmente a presente edição. A diversidade de olhares, suportes e leituras vindas das diferentes regiões do nosso solo de Pindorama. Sons e imagens em matizes verde e amarelo registradas em tela grande gravada para sempre em corações e mentes que nunca buscar real mudança cansam de buscar a real mudança.Saravá ao patrono Sérgio Mamberti , forjado entre Patricia, Maurice, Plínio e Claudião só podia dar na sábia mente que peregrinando conduz nacionalmente o brado lema do Festival.

Eparrei Júlia Lemmertz!

Esta forjada em casa pai/mãe, boa cepa, atriz de registros pontuais na retomada.

Salve Edson Celulari ! Este eu conheci como um menino muito determinado. Fez-se homem sólido entre Teatro, Cinema e Televi são, um dos mais respeitados e amados atores deste pais.

Beto Brant incomodando, propondo, instigando, enfim revendo cinematografia brasileira.

Nome que Tiradentes eternizou como diretor da década. Pra eles, a nossa gratidão.

Ao fórum dos festivais que tempera e oferece caminhos aos festivais do Brasil.

Gratos pelo Cuia Tela Viva. Um anuário que privilegia a produção e os profissionais.

Clasberg e Tela Viva on-line audiovisual a todas as horas.

Gratos também a TV Tribuna, que desde a primeira edição dá espaço vital em sua programação para projetar nosso olhar. E nossa homenagem ao comandante condutor da imprensa libertaria Roberto Mario Santini , que preservava grandes valores.

E aos festivais, que cada cidade em cada canto do pais possua e produza o seu, celebrando o cinema feito aqui e acolá, cada vez mais ávido de descentralizar-se para crescer. Nós daqui continuamos perseguindo o sonho na busca do feijão e da garra do pessoal da Ian.

Desejando uni-se a grita geral de:

Viva a Lei da Cultura!

Viva o Cinema Brasileiro!

Viva o Curta Metragem!

Filmes são feitos para serem exibidos!

Toninho Dantas Diretor do Curta Santos (pra Pipa)

Tema: Identidade e diversidade cultural

Curta Santos: Um Festival em ascensão

O cinema, o sagrado ritual da sala escura e o mundo que se abria na interpretação de grandes artistas são lembranças marcantes que trago de minha infância e minha juventude na cidade de Santos. Não apenas pela impressionante quantidade de filmes a que assisti em suas salas de cinema, mas também pelo muito que devo a chamada sétima arte em minha formação como artista.

Por este motivo, é uma grande alegria e uma grande honra para mim ser o Patrono desta 5ª Edição do Festival Santista de Curtas Metragens, especialmente neste momento em que o evento alcança uma dimensão nacional, tendo reconhecida, desta forma, sua grande contribuição ao cinema Brasileiro, em termos de estimulo a novos realizadores e também de valorização e sedimentação da importância do curta-metragem.

Além da Mostra Nacional, Olhar Brasilis, o Festival tem importante mostra regional, Olhar Caiçara, que, ao dedicar a produção da Baixada Santista e do litoral paulista, dá oportunidade a todos os que se dedicam ao cinema na região de mostrar o seu trabalho e se fazer conhecer.

Ao lado dessas mostras, neste ano temos mais um motivo para nos alegrar, pois o Curta Santos está inovando com a criação da mostra Curta On-line, voltada para mídias alternativas como telefones celulares, câmeras fotográficas digitais e palm-tops. Em um mundo em constante transformação, no qual o novo não para de ser inventado, é muito importante essa Oportunidade de mostrar as potencialidades expressivas dessas novas mi dias, que ampliam o panorama das possibilidades de realização do audiovisual contemporâneo.

Por tudo isso, o Curta Santos é uma verdadeira usina de cinema, pois é sabida a importância do curta-metragem no aprendizado do fazer cinematográfico. E o festival proporciona uma boa oportunidade para que o público de todas as idades assista, de forma gratuita, á riqueza da diversidade da produção audiovisuaI no pais, ao mesmo tempo em que se forma e se informa. É por isso que tenho certeza de que este festival, ao revelar talentos e promover as produções locais, tem contribuído significativamente para afirmar a cidade de Santos como uma referência nacional para o setor audiovisual brasileiro.

Por cumprir esse papel de estimulo e divulgação do cinema nacional, que tem sido uma das principais preocupações do Ministério da Cultura em relação a esse setor, o Curta Santos está inteiramente em consonância com as políticas que o governo vem desenvolvendo na área do audiovisual. Por isso, acredito que poderá continuar contribuindo de modo significativo nos diversos programas que vêm sendo implementado pela Secretaria do Audiovisual, como é o caso dos programas Revelando Brasis e 0 DOC - TV, que estão construindo objetivamente o laço entre produção independente e televi são, no âmbito de um processo de aproximação das relações entre cinema e televisão, união estratégica para fortalecimento da indústria audiovisual brasileira, bem como com o programa Olhar Brasil, que se propõe a regionalizar os processos de produção audiovisual em diversos Estados.

Finalmente, gostaria de cumprimentar o cineasta Beto Brant, revelado nos anos 80 com seus Curtas- metragens, certamente um dos grandes nomes do cinema brasileiro contemporâneo; que nesta edição recebe o Prémio Chico Botelho, querido amigo, extraordinário diretor de cinema e militante da cultura que tão cedo nos deixou.

Rendo também as minhas homenagens aos atores Júlia Lemmerts e Edson Celulari , que estão sendo lembrados este ano pela importante contribuição para o desenvolvimento do cinema nacional.

Longa Vida ao Curta Santos!

Sérgio Mamberti - Secretário da Identidade e da Diversidade Cultural do Ministério da Cultura

Troféu Lilian Lemmertz — Julia Lemmertz

Mulher que Atua

Parece frase de filme. E é. De copo de cólera. Mas cai como uma luva, não só para a personagem que Julia interpreta neste filme, mas também é claro, para a atriz, que, polivalente, representa no cinema, no teatro e na televi são seus papéis com a mesma desenvoltura e elegância. Como Dona Julia na mini -série JK, Molly na peça Molly Sweeney - um rastro de luz e ela um copo de cólera. Julia se entrega a arte de atuar sem medo de se expor, com paixão e sem pudor. E com muito talento. Vale lembrar que ela tem ótima genealogia: é filha de Lilian Lemmertz e Linneu Dias.

É com talento também que Julia atua na vida. Ai o verbo tem outro sentido. Mas ela continua agindo com paixão, com delicadeza, com generosidade. Com a família, o marido Alexandre e os filhos Luiza e Miguel, é mulher e mãe amorosa. Como amiga é a mais querida. Como cidadã é justa, presente e atuante, (Olha o verbo ai de novo).

Trabalhar com a Julia é muito fácil e prazeroso, está sempre pronta a contribuir para o melhor resultado possível . Para mim uma parceria inspiradora, faz parte do meu processo criativo. Começo pensando nela. Conviver com ela é mais fácil e prazeroso ainda, sempre alegre e atenciosa, atenta as necessidades, as características, as peculiaridades de cada um dos que a cercam, atenta as coisas da vida.

Esse breve texto fica incompleto se eu não falar de sua beleza angelical . Nesse quesito ela também ultrapassa barreiras. Julia é linda. Linda nas telas do cinema e da televisão. Linda quando atua no palco de um teatro, linda quando flutua pelas ruas do bairro.

Viva Julia!

Aluízio Abranches - Cineasta

Troféu Cláudio Mamberti — Edson Celulari

Na primeira vez em que vi o Edson, parecia que não estava diante de uma pessoa comum, dessas que, como nós, faz tudo aquilo que a vida nos diz: faz! Não, parecia uma pessoa mais centrada que as outras, com uma calma, uma serenidade e uma leveza que o tornava diferente. Depois eu fui percebendo que tudo aquilo só poderia vir de alguém que desde sempre sabia muito bem o que quis, que respeita o tempo das coisas e das pessoas, que tem uma sabedoria rara para perceber o seu espaço e o dos outros.

Os desafios profissionais que ele enfrenta no cinema, no teatro ou na televisão são difíceis e ele os encara com um profissionalismo e uma dedicação que vemos em poucos.

Os seus personagens, mesmo aqueles mais "duros ou maus caráteres" vêm impregnados com isso que é "seu" e, por isso, ele os torna cativantes. As minhas experiências com ele, como colega de palco, como produtor, sempre me deram alegria, e aprendi muito a entender o que realmente quer dizer a palavra generosidade.

Tenho sorte de privar de sua amizade, da intimidade da sua família maravilhosa.

Uma homenagem como essa me deixa feliz e acho mereci da, pois é para um artista brasileiro, de Bauru, para um amigo e um profissional admirável. O Edson!

Cacá Carvalho — Ator

Patrono — Sérgio Mamberti

A alegria, a liberdade e o compromisso com o ser humano fazem de Sérgio Mamberti um dos melhores representantes daquele sonho de mudar o mundo. Ficamos mais duros e perdemos muita ternura, mas ele continua a soprar, permanentemente, a brasa da esperança.

Quando penso nele me vêm á lembrança, o primeiro, o entusiasmo e o riso, embora eu o tenha encontrado também em momentos agudos, que ele enfrentou com grande coragem. Já nos conhecemos há trinta e cinco anos, ao longo dos quais ele se dedicou a centenas de trabalhos personagens de teatro, de televisão e de cinema, programação de teatro, direção de espetáculos, debates políticos, campanhas eleitorais, colagens, secretaria do Ministério da Cultura. Nunca o vi em um projeto pelo qual ele não estivesse apaixonado e sobre o qual já não tivesse alguma história divertida para tornar mais amenas as obrigatórias dificuldades.

Visitei-o pela primeira vez na casa do Bexiga, ao lado do teatro Ruth Escobar em que ele vive até hoje (agora, quando não está em Brasília). Fui visitá-lo para o Jornal Última Hora SP, provavelmente sobre alguma estreia. Os meninos eram pequenos, e brincavam nos patamares daquele jardim íngreme. Fabrício, o caçula, dependurado num corrimão, me olhou com certo tédio quando tentei puxar uma daquelas conversinhas bobas de atrair crianças. "O que você vai ser quando crescer?" arrisquei. Sem interromper suas cambalhotas ele me respondeu: "solteiro". Achei o projeto estranho para um garoto tão pequeno. Ele também: tanto que não levou adiante. Mas nada era convencional naquela família, nem Sérgio, nem Vivien Mahr, sua mulher, que faleceu em 1980, nem os amigos que frequentavam a casa, entre os quais os integrantes do Living Theatre, de passagem pelo Brasil. Não era de se esperar que as cri ancas o fossem. Mas quem vê hoje os homens que eles se tornaram compreende que existia ali mais ética e princípios do que num clã severo. E afeto de sobra.

De seus múltiplos talentos, foi o de ator de teatro que acompanhei mais de perto. Principalmente ao longo dos ensaios e da longa carreira da peça RéveiIlon, de Flávio Márcio, dirigida por Paulo José. A peça deu a Regina Duarte, que a produziu impecavelmente, em 1974, a oportunidade de mostrar que podia interpretar uma prostituta, tão bem quanto as heroínas meigas que a tronaram conheci da. Mas as figuras impressionantes de Sérgio Mamberti e Yara Amaral, naquele cenário feito de muralhas de jornal empilhado, criado por Flavio Império, ficaram inesquecíveis. O humor brincalhão de Sérgio é apenas a camada mais externa de uma sensibilidade que contém todas as nuances do sentimento, da alegria a dor.

Entrevistei-o uma milésima vez, recentemente, para a biografia de Alfredo Mesquita, que vou publicar em breve. Sérgio, como se sabe é um homem de esquerda e faz parte do governo do PT. Politicamente, não poderia ocupar um lugar mais distantes daquilo que Alfredo, fundador da EAD apreciava e que, na radicalização de 1968, o colocou em choque com artistas e estudantes. A visão amorosa e madura que ele dedicou ao velho mestre e a percepção de sua modernidade, me colocaram novamente diante da grandeza de Sérgio Mamberti. São pessoas como ele que tornam o mundo melhor

Marta Góes - Jornalista e Escritor

Troféu Chico Botelho — Beto Brant

Tenho somente boas lembranças do Beto Brant.

A primeira vez em que falei com ele pelo telefone tive a grata surpresa de receber o convite para fazer O Invasor. Eu já tinha trabalhado com alguns grandes diretores de cinema, mas naquele momento o nome do Beto estava se consolidando como o de um jovem e talentosíssimo diretor de cinema, com os filmes O matador e Ação entre amigos, com uma visão nova e visceral sobre o comportamento humano moderno.

Para um ator como eu no Brasil, receber um convite como esse, meio de tantos atores talentosos por ai, é ouro!

Fui para São Paulo ansioso para os primeiros ensaios. Quando fiquei frente a frente com ele, tive a impressão de conhecê-lo dos tempos de colégio. Logo se criou uma atmosfera superrelaxada, desencanada, e com uma característica que acho fundamental em um diretor: o amor pelos personagens e atores.

Improvisamos muito durante o processo de ensaio, nos tornamos íntimos durante aqueles meses, voltados para formar um grupo com uma cumplicidade dentro e fora de cena. E é claro que o grupo é fundamental no cinema do Beto, não só com seu elenco, mas também com os colaboradores e parceiros que estão juntos até hoje nos seus filmes posteriores ao Invasor, como o Renato Ciasca, a Bianca Villar e muitos outros, sem esquecer do Marçal Aquino.

As filmagens foram feitas num ritmo alucinante, quase de guerrilha, planos-sequências enormes, no meio da rua, de favelas, sempre abertos aos imprevistos e improvisos da cidade de São Paulo. Tenho saudades de todos, do nosso querido Sabotage e sua participação e colaboração com o personagem do Paulo Miklos.

Acho muito oportuna essa homenagem do Curta Santos ao Beto. Sem dúvida, sua filmografia já conquistou cinéfilos de gerações diferentes, dentro e fora do Brasil, e embora ainda seja um jovem diretor, já tem bagagem de um veterano.

Beto, meu amigo, te desejo vida longa, com muita energia e criatividade, para você continuar nos encantando com o seu trabalho.

Um abraço,

Alexandre Borges - Ator

Estrela na calçada da fama: Bete Mendes

Curta Cris — Cris Lorca

Antes de uma pessoa ser gay, lésbica, bissexual ou transexual ela é um ser humano.

Da mesma forma, uma obra audiovisual antes de levar um dos rótulos acima, é um filme, vídeo ou algo que valha.

Então, sempre é um dilema fazer uma mostra ou um programa com essa temática, pois se corre o risco de colocar os filmes e vídeos em guetos da mesma forma que a sociedade exclui e discrimina tudo o que é diferente para ela.

Ao mesmo tempo, unindo trabalhos com uma temática dessas em um programa, podemos analisar como estão sendo tratados as personagens gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros pelas atuais gerações. Pois se viemos de um passado em que essas personagens muitas vezes não passavam de pura chacota ou eram representadas como algo negativo, temos uma nova geração de cineastas e videastas que tratam a questão com muita dignidade e plural idade.

Aleques Eiterer — Cineasta e Curador da Mostra Curta Cris

Homenagem Especial — Maurice Legeard

Meu amigo Maurice

Nascido em Santos, em 1939, logo no início da Segunda Guerra Mundial, filho de professora primaria de um grupo escolar em Itapema, onde o Presidente Lula mais tarde foi aluno, e de funcionários de uma corretora de café, passei minha primeira infância vivendo um pouco o clima característico de uma cidade que, por mais importante da América do Sul , estava sujeita ás regras de sobrevivência em tempos de guerra.

Black-out noturno, racionamento de alimentos com suas longas filas, as queixas e as expectativas de um mundo melhor, quando o pesadelo nazista terminasse. E, claro, os mistérios que acabavam envolvendo esse uni verso fantasioso para uma criança que ouvia falar de submarinos emergindo das aguas do Roqueira ou do José Menino prontos para nos atacar a qualquer momento. Ou então, os perigos de andar nas ruas da cidade á mercê do Capa Preta, um ladrão trajado de negro que assaltava os cidadãos indefesos na escuridão das noites santistas.

A primeira vez que entrei em um cinema, uma matinê do Cine Atlântico, ali no Gonzaga, quando se pagaram as luzes e apareceram na tela as primeiras imagens, meu fértil imaginário de criança foi definitivamente cativado pela magia da sétima arte.

Até os anos 50, ao lado das primeiras leituras, tiras de jornal, livros de histórias e até mesmo os livros escolares, ou então as histórias contadas a noite, antes de dormir, por meu pai , minha mãe ou minha avó paterna, e as maravilhosas aventuras radiofônicas como Jim das Selvas Ou as novelas lacrimosas e românticas que eu ouvia nossas empregadas, somaram-se ás outras atentamente com as experiências, exercendo o mesmo fascínio na minha formação.

Mas, a partir dos 11, 12 anos, o cinema foi assumindo um papel preponderante nas minhas opções, chegando a assistir cerca de 300 filmes por ano, que eu anotava um a um com comentários em meus cadernos, como exercício de registro e de crítica dessas vivências tão ricas.

Foi então que o Clube de Cinema de Santos me abriu as portas para entender melhor, através de sua memória, o universo do cinema, com os filmes mais ousados e mais criativos de várias cinematografias. Pelo Jornal A Tribuna, tomei conhecimento das sessões comandadas por um francês chamado Maurice Legeard, que sabia tudo sobre cinema e a quem procurei imediatamente pra tornar-me sócio dessa admirável confraria.

Desde o primeiro momento, nossa amizade se consolidou definitivamente, passando a ter papel fundamental para o meu entendimento do mundo, das coisas, pois o Maurice passava para a gente não só sua paixão e sua dedicação pelo cinema, mas seu inquebrável compromisso com a justiça social, a cidadania e a solidariedade. Comunista assumido era implacável nas suas considerações sobre os seculares privilégios, tendo o cinema como instrumento de luta para a sua causa.

Passei a frequentar não só as inesquecíveis sessões do Clube de Cinema, com direito a palestras de Paulo Emilio Salles Gomes, mas também a sua casa, a convivência com sua família, onde ele me passava seus inestimáveis conhecimentos sobre tudo. Foram longos anos em que aprendi o significado profundo de uma vida dedicada á preservação e á consumação de um sonho. O obstinado e radical Maurice contaminava todos que se acercavam dele com sua incansável militância. Tenho certeza de que Maurice foi , nos anos em que atuou na vida cultural de Santos, uma figura das mais singulares e mais emblemáticas da nossa cidade.

Foi graças ao Maurice que conheci também Patrícia Galvão, cuja a existência eu já sabia por ser minha vizinha ali na Vila Mathias, mas que eu admirava só de longe. Nas tardes que dedicávamos ao cinema, passamos a ir e voltar juntos, caminhando a pé pelo bairro, trocando impressões sobre 0 que havíamos compartilhado, mas falando principalmente sobre tudo.

Quando vim para São Paulo estudar teatro, em 1957, Maurice foi o mais entusiasmado incentivador, nomeando-me inclusive representante do Clube de Cinema junto à cinemateca, que reuniu jovens como Gustavo Dahl, Maurice CapovilIa, Jean-CIaude Bernadet, WIadimir Herzog, entre outros, inesquecível experiência em todos os senti dos. Mais tarde, nos anos que se seguiram, continuei mantendo contato com Maurice, que se consumia na própria chama sem perder de vista seus objetivos. Criou a Cinemateca de Santos, com sede no velho prédio da Cadeia, passando depois a residir no mesmo endereço, levando todo o património que colecionou durante a sua vida. Seus últimos anos árduos e difíceis que ele enfrentou com a mesma coragem e o mesmo brilho que sempre caracterizou sua trajetória.

Hoje, sem Maurice conosco, o Curta Santos, sua preciosa herança e o património que reuniu ao longo de sua vida, o fazem mais vivo do que nunca. Sua filha Patrícia está a frente da Cinemateca de Santos, e sua incrível presença continua a iluminar nosso caminhos. Como patrono do Curta Santos na edição 2007, gostaria de dedicar esta homenagem que recebo, a meu amigo Maurice Armand Marius Legeard, a quem devo algo que não pode ser medido nem tocado, mas que certamente é quase tudo.

Merci, mon cher ami!

Sérgio Mamberti - Secretário de Identidade e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura

Homenagem Especial — José Carlos Burle

José Carlos Burle nasceu no Recife, em 1910, proveniente de abastada família de canavieiros. Desde cedo afloraram suas futuras vocações para o campo da arte, a música em especial. Tocava piano, compunha e liderava um conjunto estudantil onde era cooner, lia intensamente, frequentava cinema diariamente. Porém, a família forjara para ele outros horizontes. Como nenhum dos irmãos se aproximara da universidade, pois todos se dedicaram ao comercio e a indústria, os Burle ficariam privados de um doutor. O caçula arcaria com o fardo. Esta seria a primeira confrontação que o futuro Zeca, ou mais intimamente, tio Zequinha, conheceria. Não largando inteiramente o teclado, optou pela medicina, pois imaginava ter mais afinidade com ela do que com direito ou engenharia.

Os estudos na Faculdade de Medicina da praia Vermelha, no Rio de Janeiro, colocaram Burle em contato com os boémios e os cabarés da Lapa , jogadores do Flamengo e Fluminense e o cinema carioca, o único que gozava de existência mais ou menos digna em todo o pais.

Tornou-se amigo do radialista e cineasta Moacyr Fenelon, seu mestre dos primeiros momentos do filme Maria Bonita, colaborando Burle com as canções, coadjuvando como ator e prestando-se ainda a assistência de direção. Os cinco anos seguintes período em que Zeca medicou, foi crítico de música e de cinema do Jornal Brasil - foram dramáticos para o cinema brasileiro, pois ocorreu o incêndio da Sonofilmes e Adhemar Gonzaga escreveu carta publica informando que a Cinelândia Cinematográfica encerrava suas atividades. Em meio a essa paralisia total, Fenelon e Burle formalizaram a Atlântida Cinematográfica, recorrendo á venda de ações. A formalização veio acompanhada por um manifesto, provavelmente escrito por AIinor Azevedo, ideário do grupo que proclamava que o povo estava apto Recber coisas melhores desde que as recebesse.

A dupla ressentiu-se profundamente de não ter alcançado o prometido. Pior ainda quando foram obrigados a pactuar com a chamada, modalidade degradada por toda a intelectualidade como ópio do povo, exatamente o inverso do que haviam prometido no manifesto, ou seja, não refugiar-se em Oscarito, Grande Otelo e vedetes do teatro de revistas fazendo caixa para cobrir os rombos orçamentários das obras que Fenelon e Burle estavam dirigindo: Gol da vitória, É proibido sonhar, Vidas Solidarias, Romance de um mordedor, entre outras.

A produtora foi vendida exatamente para a personalidade que mais odiavam, o distribuidor e exibidor Luis Severn ano Ribeiro. Fenelon foi o primeiro a deixar sua cria, enquanto Burle, com o passar dos anos, tornou-se um mero funcionário da empresa que fundara e que observava todas as suas economias. Ironicamente, nesse momento dirigiu um dos momentos mais altos da chanchada, carnaval Atlântida, hoje reconhecido por todos como um dos ápices do cinema brasileiro.

Mas, por desavenças internas, nem mesmo lá pôde continuar, ingressou primeiramente na Multifilmes, em São Paulo, realizando dois filmes opacos para, em seguida, como independente, produzir comedias em que suas canções tinha parte preponderante. Com a desistência do diretor inicialmente escolhido, em 1063 tio Zequinha foi convidado para dirigir Terra sem Deus, rodada em seu solo natal , Recife, e no agreste. No filme, Burle teve a oportunidade de levantar os problemas latifundiários do Brasil, a seca e semiescravidão do homem do campo. Juntamente com Terra sem Deus, filmavam-se Vidas Secas , Deus e o Diabo na Terra do sol e os Fuzis — que têm intimas ligações com seu conteúdo.

Burle sempre foi um homem discreto, o oposto dos modelos esfuziantes então em voga. Como Lima Barreto e Glauber Rocha. Morreu em 1983, quase no anonimato, na casa de uma irmã, em Atibaia e, mesmo eu, amigo íntimo, somente tive conhecimento do acontecido sete dias depois, quando Massaini o tornou público. Sempre esteve na linha de frente, batalhando pela integridade do cinema nacional , seja como líder da associação de Produtores, seja participando na Câmara Federal da CP I do Inquérito sobre o descumprimento das leis de proteção ao cinema brasileiro, seja como um simples trabalhador devotado e empreender mais uma obra do cinema brasileiro.

Maximo Barro - Professor Universitário e Curador da Mostra José Carlos Burle

Homenagem Especial - Oficinas Querô

- O filme Querô e a preparação dos atores

Carlos Cortez queria fazer um filme sobre abandono, queria contara história de menino sozinho na vida. Surgiu, assim a ideia de fazer Querô, um filme a partir do romance do dramaturgo santista Plínio Marcos.

No caminho para a realização do filme, diretor e produtores depararam-se com uma questão: porque a história desse menino precisa ser contada? A resposta está na vida. O filme precisa ser feito porque Querô é um menino que luta para sair da invisibilidade, luta para não ser visto como "mais um pivete de rua", luta contra uma sociedade que vem na contramão tentando desumanizá-lo.

Esclarecido o foco do filme, surgiu uma nova questão: como levar as telas essa dura realidade? A resposta veio através de um processo que integrou ao elenco do filme 40 garotos vindos de regiões de baixa renda da Baixada Santista. Meninos entre 13 e 19 anos que cresceram na mesma situação de invisibilidade do personagem, participaram de oficinas de preparação de ator, e com sua experiência de vida, contribuíram para que o universo de Querô ganhasse forma. Esses jovens frequentaram aulas de interpretação, expressão corporal, capoeira e palestras sobre cidadania como parte do programa de preparação de atores coordenado por Luis Mario Vicente.

- A Criação das Oficinas Querô

Terminadas as filmagens, o choro compulsivo no rosto dos 40 meninos era a marca de que alguma coisa havia mudado, marca de que uma transformação ocorrerá em cada um deles, e era também um grito para que esse processo não acabasse, um grito para que a sociedade não tirasse novamente o direito a palavra que lhes fora dado. Foi então que a Gulane Filmes resolveu dar continuidade as oficinas, com a criação do projeto Oficinas Querô Empreendedorismo e Cidadania através de Cinema. Os meninos assumem agora o papel de diretores, produtores, criadores, contadores de história e decidem o que querem falar. Através do cinema, aprendem a "dar voz, aos que não têm voz", como dizia Plinio Marcos.

- As Primeiras Oficinas

Durante o ano de 2006, foram realizadas as primeiras oficinas voltadas ao "Oficio Cinematográfico" com uma turma de garotos vinda do processo de preparação do filme.

Os jovens desenvolveram curtas-metragens com a orientação de diversos profissionais de destaque no setor audiovisual. Tiveram como professores Braulio Mantovani, Luiz Bolognesi, Carlos Reichenbach e até mesmo os próprios produtores da Cullane Filmes, Fabiano Gullane, Caio Gullane e Debora Ivanov e o diretor de Querô, Carlos Cortez.

Aprenderam todo o processo da produção de um filme, desde a criação do roteiro e busca de recursos até a finalização e o lançamento. Foram cinco dias semanais de atividades intensas durante 11 meses. Nesse período, projetos foram desenvolvidos em grupos para ganhar vida na tela. De documentários a ficções, a realidade que compõe o entorno desses jovens era o foco: seja a cidade e suas peculiaridades, como ocorreu em Torto, que aborda de forma original o problema dos prédios tortos da orla santista; seja a periferia e suas personagens como no documentário Maria Capacete, que conta um pouco da vida e da trajetória de Maria, uma moradora da favela do México 70.

- Bons Resultados e Novos Desafios

Depois de um ano de trabalho intenso e dedicação ás aulas e aos seus projetos, os jovens puderam colher os frutos das primeiras empreitadas como curta-metragistas.

Além dos prémios recebidos em importantes festivais brasileiros, como o Festival Internacional de Cinema de São Paulo e o Curta Santos, os garotos começaram a descobrir uma vocação.

Alguns já estão trabalhando no mercado audiovisual como montadores, cinegrafistas, produtores e estagiários em longas-metragens.

Com o intuito de continuar estimulando ações empreendedoras através de cinema, as atividades tiveram continuidade em 2007, com a abertura de novas turmas e, para aqueles garotos que Concluíram o primeiro curso, o desafio está sendo abrir a própria produtora.

Uma nova perspectiva se abre para esses garotos que hoje se tornam também pequenos empresários, abrindo e administrando seu próprio negócio.

Antes invisíveis em suas comunidades, hoje são reconhecidos como talentos e modelos de sucesso por onde passam. Os jovens estão recebendo convites, entre eles o de realizar oficinas junto a adolescentes internos da Fundação Casa de São Paulo (Ex-Febem) . Essa nova experiência permite que os garotos das Oficinas Querô tornem-se agentes multiplicadores de conhecimento, além de ser um grande aprendizado para ambas as partes.

Um longo caminho foi percorrido pelos adolescentes da primeira turma das Oficinas Querô desde de o dia em que fizeram o primeiro teste para um filme. A realidade do menino Querô, na qual mergulharam para levar as telas um belo trabalho, não é mais um fantasma que paira sobre a vida desses meninos. Hoje, eles sonhar com um brilhante futuro e lutam para empreender esses sonhos. E todos os semestres, novas turmas têm a oportunidade de vivenciar a experiência do audiovisual a desenvolver habilidades novas nessa arte de contar histórias.

"Acreditamos que projetos como as Oficinas Querô têm a capacidade de formar e ajudar jovens que moram em lugares de risco, dando uma visão ampla e sincera sobre o nosso futuro e nos fazendo acreditar que existe um outro mundo bem melhor do que vivemos em nossos bairros."

"Apesar de estarmos aprendendo a trabalhar com cinema, sonhamos, um dia quem sabe, nos tornar não só produtores de cinema, mas empreendedores em todos os projetos que realizarmos em nossas vidas".

"As Oficias, para nós, são como Oficinas de Desejos, Oficinas de Realizações, Oficinas de Sonhos Somos o que somos hoje graças a esse projeto."

Caio e Fabiano Gullane e Débora Ivanov - Produtora da Gullane Filmes

Homenagem Especial - Fórum dos Festivais

O Fórum dos Festivais expressa a união dos eventos audiovisuais brasileiros em torno de uma aÇá0 coletiva. Seu principal objetivo é fortalecer os festivais integrando-os aos demais setores que compõe a comunidade audiovisual. Essa integração está sendo concretizada em várias frentes. A mais recente delas é a indicação de um membro do fórum dos Festivais para a Diretoria do CBC, o Congresso Brasileiro de Cinema órgão que reúne as principais entidades do setor. Outra presença marcante é a presença no Conselho Consultivo da Secretaria de Audiovisual /Ministério da Cultura.

Ao completar dez anos de atividade, o Fórum dos Festivais encontra-se consolidado e procura estimular o incremento do Circuito dos Festivais Brasileiros, tanto no Brasil quanto no exterior, com atenção especial para a qualidade da produção dos eventos. Nesse sentido, nunca é demais lembrar a importância do Código de Ética, um instrumento que norteia os esforços dos organizadores dos eventos para atingir o Máximo de qualidade em sua condução, sempre na busca do interesse do público, dos realizadores e dos produtores. No intuito de ampliar a divulgação das atividades do setor e a circulação das informações acerca das atividades desenvolvidas pelos festivais, foi lançado o site.

www.forumdosfestivais.com.br, uma ferramenta importantíssima para todos os públicos interessados em obter informação sobre os eventos, tais como calendário, contatos, premi ados, inscrições Notícias em geral sobre os festivais parceiros.

Temos plena convicção de que os festivais representam uma importante fonte de visibilidade para os produtos audiovisuais brasileiros e ocupam com competência o seu espaço. É por meio desses eventos que podemos ampliar o acesso do público ás produções nacionais; formar novas plateias criar modelos alternativos de exibição; promover a atividade; estimular o surgimento de novos talentos e a produção de novas obras; promover intercâmbios; estimular a discussão em seminários e workshops; abrir espaço para a realização de negócios; inserir, expandir e consolidar o mercado para produto nacional tanto no Brasil como no exterior. Os festivais são, portanto, uma vitrine natural, eficiente e permanente do produto audiovisual brasileiro.

FÓRUM DOS FESTIVAIS - Fórum Nacional de Organizadores de Eventos Audiovisuais Brasileiro
www.forumdosfestivais.com.br

Homenagem Especial - Tela Viva

Em meio a telefonemas e e-mails, entre fechamentos, prazos, eventos e coberturas, foi uma grande alegria, e uma deliciosa surpresa, receber a ligação do Curta Santos avisando que o Tela Viva seria homenageada na Edição deste ano. Sem qualquer falsa modéstia, devo dizer que em nosso trabalho diário, pela militância pelo jornalismo de qualidade no mercado audiovisual, prêmios e homenagens nunca estiveram entre as prioridades. Raríssimas vezes nos inscrevemos voluntariamente em algum tipo de concurso. O reconhecimento do nosso trabalho (na forma de elogios, e muito frequentemente críticas) vem normalmente daqueles aquém ele se destina: nossos leitores e anunciantes.

Mas também não escondo que é uma sensação de orgulho que aceitamos e agradecemos ETs homenagem.

Tela Viva nasceu há 15 anos com uma proposta de jornalismo setorial diferente do que normalmente se conhece em qualquer Segmento da atividade económica. Fundada e dirigida até hoje exclusivamente por jornalistas, liderados por Rubens Clasberg, cuja história na imprensa passa pelos principais Veículos de comunicação do País a revista, e depois o noticiário on-line, sempre foram pautados pelos principais maiores da atividade: pluralidade das opiniões, rigor na apuração dos fatos e independência editorial.

A Tela Viva pertence a uma empresa privada 100% brasileira, Converge comunicações, sem qualquer vínculo com empresas dos setores eu cobre. Nossas receitas provêm exclusivamente da venda de peculiaridade, do patrocínio aos nossos eventos e da venda de assinaturas. Nossa equipe é formada por cinco jornalistas fixos em São Paulo, dois em Brasília e um no Rio de Janeiro, além de uma rede de colaboradores eventuais. Além disso, temos a constante troca de informações e material com as nossas publicações irmãs TELETIME e TI INSIDE, também editadas pela Converge.

Toda esta estrutura está disponível para acompanhar o dia a dia do mercado audiovisual no Brasil e no mundo, entender suas transformações, e estimular seu crescimento. A tecnologia digital esta transformando a forma pela qual as pessoas têm acesso á informação ao entretenimento. As formas tradicionais da distribuição, embora devam manter sua força ainda por muitos anos, deixam de ser única alternativa para quem busca conteúdo, especialmente aqueles de caráter inovador, experimental, contestador.

Com a rápida disseminação do acesso em alta velocidade ás redes de dados, conteúdos que antes sequer chegavam ás salas de cinema ou prateleiras de uma vídeo locadora, podem ser vistos, distribuídos, reproduzidos com diferentes formas de controle de direitos autorais. É o começo do fim da era dos gargalos e começo da esfera do livre transito de produtos culturais, especialmente dos formatos audiovisuais.

Nesse cenário é especialmente feliz receber esta homenagem de um festival de curtas metragens são reconhecidos pela indústria como a porta de entrada de novos talentos na produção audiovisual. São também o espaço da cri ação livre e experimentação. por outro lado, Sempre entraram grandes dificuldades de distribuição digital , abre-se um novo caminho para 0 curta, que passa a ter canais para chegar diretamente ao seu público. O formato curto ais é um dos mais apropriados para as mídias digitais.

É assim, portanto que recebemos com muita alegria e também com muito senso de responsabilidade, essa generosa homenagem do Curta Santos. Esperamos continuar cumprindo por muitos anos nosso papel de dar ao mercado audiovisual , em toda as suas vertentes, a visibilidade e a transparência que sempre guiaram nosso trabalho. Parabéns ao Curta Santos por ais essa vitoriosa edição, e muito obrigado e nome de toda a nossa equipe, certamente muito mais motivada agora com esse reconheci mento público.

Um Abraço!

André Mermelstein - Editor de Publicação Tela Viva

Homenagem Especial In Memoriam - Roberto Mario Santini

Roberto Mário Santini, uma vida dedicada à comunicação.

A biografia de Roberto Mário Santini se confunde com parte da história de A Tribuna. Nasceu em 8 de junho de 1928, época em que o jornal já era comandado, desde 1909, por seu avô paterno, o cearense Manuel Nasci mento Junior.

Roberto começou a circular pela empresa ainda criança e seu sonho era seguir os passos do pai, Ciusfredo Nascimento, que trabalhava na empresa desde 1926. Em vez de brincar como qualquer garoto de sua idade, encontrava pequenas tarefas para desenvolver, como receber anúncios no balcão que ainda funcionava no número 90 da General Câmara, vender jornais e descobrir por toda a vida: a comunicação.

Oficialmente, porém, ele começou a trabalhar em A Tribuna em 1948, aos 20 como assistente do pai. Um ano depois, seguiu para os Estados Unidos, onde completou o curso de Administração de Empresas pela Miami University.

Roberto Santini fugia aquele estereótipo de empresário que se fecha em seu escritório e pouco convive com o dia-a-dia dos empregados. Ele respirava comunicação. Não foram poucas às vezes em que acompanhou repórteres e fotógrafos a viagens pelo Brasil, assim como era comum circular pela Redação e pelo parque gráfico, buscando descobrir detalhes desse fantástico processo de se fazer um jornal. Gostava de entender o processo da comunicação, desde a redação de uma notícia até a saída do jornal para as bancas. Também nutria um carinho especial pelos leitores, a quem chamava de "donos do jornal".

Em 1954 assumiu o cargo de assistente de gerência, passando a gerente auxiliar em 59 com a morte do avô, Manuel Nascimento Junior. Depois, gerente geral, diretor-superintendente e diretor— presidente.

Roberto Mário Santini sempre pautou a vida do jornal em dois pilares que sustentam o grupo A Tribuna até hoje: investimento e modernização. Foi com esse foco que foi, ao longo dos anos, aprimorando não só os sistemas de impressão do parque gráfico, como também a tecnologia necessária para dar agilidade e amplitude ao noticiário, agregando ás matérias locais e regionais o material produzido pelas agências nacionais e internacionais de notícias.

Foi por acreditar na força da comunicação e na necessidade de colocá-la sempre a serviço da comunidade, que Roberto Mário Sant ini comandou, ao longo dos anos, a ampliação e fortalecimento do grupo: Rádio Tri FM, que este ano completa 26 anos; TV Tribuna, afiliada à Rede Globo, com 15 anos, e, mais recentemente, o Expresso Popular, veiculo, que teve seu empenho pessoal desde a concepção até seu lançamento, em abril de 2001.

O Sistema A Tribuna de Comunicação tem ainda outros produtos, como o Primeiramão Santos e Campinas, A Tribuna Digital e o Instituto de Pesquisas A Tribuna (IPA T), lançado em 2005.

O legado de Roberto Mário Santini, falecido em janeiro deste ano, vai além dos investimentos e dos negócios. Sua figura simples, de sorriso tímido e relacionamento fácil, ainda está presente na memória de todos aqueles que tiveram a oportunidade de conhecê-lo.

Marcio Calves - Editor chefe do jornal A Tribuna