Homenageados - 7º Curta Santos

Tema: Lux in Tenebris

"Reinventar o espaço juntos...

Que a luz nasce da escuridão

Guarde tudo em seu coração!"

FAÇA-SE A LUX

A proposta temática LUX IN TENEBRIS revela a busca do ser humano na angústia do tempo, as suas indignações eternas. Simbolicamente articula-se na magia da sala em trevas, no momento em que a luz irrompe-se na magia da sala em trevas, no momento que a luz irrompe-se projetando o fenómeno cinema, revelando as profundezas. Aventura humana angulada e focada por múltiplos olhares, invadindo e desnudando-nos a nós travestidos em autênticos voyeurs de nós mesmos, delicia de arte.

Chamada de sétima arte, e é isto que celebramos em nossa sétima edição!

CINEMA!

O tema serve de mote para produzir pensamento e reflexão sobre o momento rico e variado da produção nacional, recebendo Outros festivais e firmando compromisso na ação responsável , enriquecedora, para melhor olhar, enxergar, pensar , refletir, assimilar, dialogar, plasmar, discutir, contrapor e respeitar. Nos ver, nos rever, através do fenômeno ocorrido quando o cinema acontece, hoje, altamente descentralizado deste pais. Bem vindos todos! Os caiçaras os acolhem com expectativa de admirar vosso olhar, e revelar o nosso, que está no nascedouro, desbitolando tudo para a troca ansiada.

Sim teremos o lado doce de ver o cinema independente reluzindo nas telas, contudo, a provar os sabores amargos que temos a deglutir.

É fundamental garantir a Lux que se acenda a cada festival realizado nos quatro cantos e mocambos deste pais-continente, dos mais faustosos ao mais requenguela, pois Sua existência possibilita democratizar acesso a um publico novo, falar da tenebrosa distribuição audiovisual . Somos tão parcos de salas exibidoras, então nossa missão é a de levar claridade milhões de expectadores sobre sua (nossa) própria História.

Salve os valorosos cineclubsitas tão atuantes no agora, luz pura de amor e reflexão, e viva Maurice Legeard, criador de nossa Cinemateca, junto com Sérgio Mamberti, CiIberto Mendes, Cera Ido Ferraz, entre outros companheiros.

Honrados e enriquecidos com a presença diretores de grandes festivais nacionais, prometemos: nasce junto a vocês, aqui em nosso Pólo Caiçara de Produção, uma articulação. Ansiamos dialogar entre os vários "cinemas" e movimentos do nosso setor. Buscamos sintoma e sinergia, queremos somar na faina e na luta continua da necessidade e do diretor a ter acesso facilitado á produção de conteúdo nacional. Desejamos aprender muito com vocês.

Salve mestre Carlos Manga! Quanto o áudio visual desse pais lhe deve, magnifico diretor de sublimes e clássicos musicais da Atlanta. Tua camera fez reluzir mais ainda mais dois ícones do nosso cinema Grande Otelo e genial Oscarito. Salve Maite! Mulher desafiadoramente linda, provocante com sua mente arguta e atenta, poeta na vida, atriz intelectual, gratos por termos o privilégio de comemorar seus 30 anos de carreira gloriosa. Salve Belmonte! Cara, inovas e inquietas com esse olhar perscrutador, estamos ansiando pelo que vira ainda. Salve Matheus! chama pura, intensa, que fere, adoça, apimenta a cada novo personagem, incómodo puro a cada investida. Salve Edna! Todos os tapetes vermelhos do cinema brasileiro estendidos para ti são pouco, por tudo o que colaboras e empreendes na Quanta. Cinevivo parceria que levou uma mostra do Curta Santos a Leipzig, graças a Mártin Turnes.

Zita Carvalhosa, você com o Torero deram um presente a esta cidade, semearam e sedimentaram um movimento de realização nessa região, a chegada das Oficinas Kinoforum.

Deram o Start ali, a chegada do Festival Internacional coroou tudo.

Rudá de Andrade, lembrando do rap do surdo em uma madrugada do festival , impagável, vivido, lépido, todo festival para ti , querido, brilhas e aconteces conosco.

Antonio Campos Neto, Toninho Campos, oriundo de uma linhagem que manteve a historia dos cinemas na cidade, Cine Roxy, O palácio que abriga o festival completa 75 anos, ganhando este ano 4 novas salas restaurando a Cinelândia. Para comemorar vamos eternizar na calcada as fama, a nossa estrela maior Ney Latorraca. Explosão de talento jorrando majestoso no cinema, teatro a televisão. Engalanados ti recebemos na tua modéstia, poucos sabem o que já realizaste para as crianças dessa cidade, tua Lux brilha eterna aqui, tua amada Santos, que ti ama.

Aos caiçaras, nosso povo: Continuem trabalhando duro e sério. O Curta Santos é feito para recompensar o trabalho de vocês. O festival é nossa forma de agradecer o muito realizado nas vossas produções com os minguados recursos que conseguem, sem apoio, mais na raça, garra, Fé, vontade. Aproveitem o mergulho restaurador e purificador..

Que a Lux aparte das trevas!

Descortina-se a aventura da descoberta humana através da ação audaciosa!

Refazer. Reaver. Redescobrir. Renascer!

VIVA ODETE LARA!

VIVE LA FRANCE!

CIDADE, CIDADÃO, CIDADANIA

E SALVE-SE QUEM PUDER

VAMOS A LUX!

Toninho Dantas

Troféu Lilian Lemmertz - Maitê Proença

Nunca vou me esquecer da primeira vez que vi Maitê Proença. Foi no final dos anos 70, não me lembro exatamente o ano, mas foi na sala de cinema do Museu da Imagem e do Som em São Paulo, onde eu assistia um seminário sobre roteiros para Cinema. Na platéia uma loira espetacular intrigava o público e os palestrantes com perguntas perspicazes e opiniões inteligentes sobre dramaturgia cinematográfica.

Todos na sala e no palco queriam saber quem era a loira? De onde tinha saído aquela obra-prima da natureza? Era Maitê.

Já inteira: carismática e original.

Um dos palestrantes era Mário Prata e, algum tempo depois, Maitê estrelava uma novela de Prata para a antiga TV Tupi. Nessa altura Maitê também tinha estrelado um dos sucessos do antigo cinema em super-8 e eu, na época um "cineasta super-8" , sonhava dirigir Maitê num filme meu.

Uns dez anos se passaram, Maitê ficou famosa tomando banhos de cachoeira como D. Beija, e eu consegui financiamento para fiImar "A Dama do Cine Shanghai " Foi um desses filmes raros onde todos os atores que convidei toparam fazer o fiIme. Mas apesar do elenco excepcional, sempre achei que a alma do filme é Maitê. Seu olhar misterioso e cheio de significações e ambiguidades é o responsável por fazer todo aquele mistério criar sentido aos olhos do espectador. Cada expressão de Maitê instiga a platéia a mergulhar mais fundo naquele universo de sombras.

Nesses anos todos segui Maitê como fã e amigo em inúmeros filmes e novelas. Filmes como "Brasa Adormecida" , Beijo 2348/72, "16060" , "Paixão Perdida" , "Tolerância" , "Jogo Subterrâneo" e "A Selva" . AIém, é claro, de dois outros que fiz com Maitê: 'i A Hora Mágica" e "Onde Andará Dulce Veiga?".

Me encantei com Maitê fazendo Nelson Rodrigues na série "A Vida Como Ela É", não sou muito de assistir novelas, mas nunca mudei de canal quando vi Maitê no video. Sua presença sempre me deslumbra de alguma maneira. Sempre com um personagem novo, sempre uma nova Maitê, sempre uma inspiração. Maitê é, sem dúvida, minha musa inspiradora. Eu devia dizer minha "musas' inspiradoras, no plural, porque Maitê são várias.

Vejo a Maitê-comentarista no "Saia Justa". Vi Maitê muitas vezes no teatro, cantando Cole Porter, nua Na Sauna, em peças dirigidas por Domingos de Oliveira e Augusto Boal, ou representando personagens que ela mesma escreveu em "Achadas e Perdidas" . A Maitê-escritora também surpreende os leitores com idéias criativas; frutos de uma aguçada observação.

Todas as Maitês são interessantes. Até seus comentários na revista "Caras" me fazem sorrir e refletir sobre a vida.

Não sou capaz de falar de todas as muitas Maitês. Conheço apenas algumas. O que sei é que é impossível decifrar Mantê Proença. Existem mistérios que desafiam todos os sábios. Não sou um sábio e por isso não vou me meter a decifrar Maitê. Creio que nem Maitê Proença pode decifrar a si mesma. Mas é para isso que servem as musas. As musas não podem e não devem ser decifradas. As musas servem para que descubramos dentro de nós mesmos aquilo que temos de melhor. E não há nada melhor do que Maitê Proença.

Guilherme de Almeida Prado

Troféu Cláudio Mamberti — Matheus Nachtergaele

"Matheus é um ator furioso.

Um homem que se formou nas bases do teatro e expandiu suas capacidades múltiplas para o cinema e para a TV.

Assim, um público mais amplo teve a oportunidade de se deparar com sua força.

Um ator com A maiúsculo.

Religiosamente se oferenda para personagens tão distintos mantendo sua expressão gigante em alta voltagem.

Fizemos uma bela dupla em "O auto da Compadeci da, entramos definitivamente no coração dos brasileiros por conta desse encontro. E acompanho atentamente sua trajetória complexa, sincera, derramada, apaixonada.

Um artista em constante movimento.

Um artista brasileiro em constante movimento.

Desejo vida longa e inspirada ao meu companheiro de artes Matheus Nachtergaele!"

Selton Mello

Trofeu Chico Botelho - Jose Eduardo Belmonte

Uma vez falei para o Zé que ele era o nosso Cus Van Sant Brasileiro, o que depois foi confirmado por ninguém menos que Fernando Meireles. Falei isso diante da coragem e ousadia que ele tem quando faz um roteiro, escolhe a equipe e fiIma o "interior" dos personagens.

Sim, porque o Zé não filma um ator e seu texto simplesmente, ele filma a energia de um personagem, sendo ele um ser ambíguo em sua sexualidade ou somente um esparadrapo no asfalto.

Ele trabalha usando códigos que são de uma cri atividade rara e extremamente enriquecedora para todos que estão no Set. Ajuda o ator a desnudar e usar o seu caos, seu medo, e o que tem de mais belo e sensível dentro de si.

Hoje vejo que o Zé não pode ser comparado ao Cus Van Sant, mas somente a ele mesmo, porque no quesito genialidade , não deve haver comparações.

Cauâ Reymond

Patrono — Carlos Manga

Depois de "certa" idade entramos na fase dos agas (hs), disse certa vez ao receber um prêmio pela sua vida cinematográfica Billy Wilder. E concluiu: - "homenagens e hemorróidas" ! ! !

Desculpem estar senso prosaico, mas repito as palavras de um dos maiores autores, em todos os sentidos, do cinema mundial.

Ao ser convocado para escrever sobre o artesão da arte visual, que tanto conheço, curiosamente me faltaram palavras, o mote, o que dizer sobre ele?

Me nego a fazer um texto que fale dos trabalhos do artista que nesta edição é laureado. Ele é um motivo de culto e estudo. Portanto para que escrever o que pode ser encontrado na web e enciclopédia sobre cinema, televisão Ou arte.

Se fosse eu um escritor de biografias, pediria um ano para conseguir analisar e dizer da importância. Se fosse um jornalista um mês para num artigo, resumir toda uma vida de dedicação a comunicação do brasil

Porque tardiamente reconhecemos os importantes homens a nossa volta? Porque não aplaudimos o sucesso com orgulho? Porque desdenhamos os grandes comunicadores populares?

Que bom que o "Curta Santos" se manifesta, junto com outros festivais que já lhe deram prova de respeito.

Eu faço parte dos que o cultuam desde 1950. Trabalhei sob seu comando como ator, diretor. Tive o privilégio de tê-lo como colega e dele receber orientações. E como amigo, trocar ideias e esperanças.

Parabéns aos diretores desta festa que com sensibilidade e inteligência conseguiram ter Como patrono um orgulho de todos nós do áudio-visual brasileiro. Me junto a vocês e digo;

Obrigado, CARLOS MANGA!

Daniel Filho

Estrela na Calçada da Fama — Ney Latorraca

É difícil escrever sobre um amigo de toda a vida. Fiz isso uma vez na introdução de um livro sobre o Ney da Coleção Aplausos que aproveito aqui. Uma das filosofias dessa coleção que a Imprensa OficiaI está publicando, é fazer justiça, sempre que possível em vida, ao trabalho de nossos grandes artistas e profissionais, reconhecendo a herança que e es nos deixa, . Que é também a intenção do Curta Santos, ao fazer esta homenagem a ele, ainda mais importante porque veio de sua terra natal, que ele nunca esqueceu, nunca deixa de mencionar com carinho.

Qualquer pessoa que tenha tido a sorte de trabalhar ou conviver com o Ney sabe disso: ele é uma das pessoas mais engraçadas e das que conheço. Tem expressões próprias, caretas, gestos, que são tão comunicativos que em pouco tempo todo o grupo está imitando ele, sem se dar conta. Viramos todos pequenos Neys. Quem viu a montagem original de Irma Vap (e quem não viu?) sabe bem como ele pegou um papel de coadjuvante e o transformou , com improviso, num duelo entre dois grandes atores como pouco se viu nos palcos brasileiros. No inicio dos anos 70, tive um projeto de fazer um filme chamado Cordão Umbilical, justamente com Ney, Marco Nanini , Marilia Pêra e Débora Duarte ( com quem Ney fez o grande êxito Anarquista, Graças a Deus, que ele confessa ser seu papel preferido). O fim nunca saiu, mas minha intuição estava certa, eles todos combinavam.

Ney está presente em minha vida desde de Santos, no começo dos nos 60. Quando o conheci fiquei assustado com aquela vitalidade, aquele despudor amento, aquele tão obvio e evidente. E que não pedia desculpas. Ao contrário, se assumia. Dizia que ia ser o maior ator do Brasil. E pronto. Hoje ninguém discute isso, apenas o imitam descaradamente. A meu ver muito mal, sem chegar perto do verdadeiro.

Foi justamente por ser tão assumido que o aceitei como amigo (porque ele fez uma grande campanha para me conquistar. Quando alguém não gosta dele a primeira vista, ele faz tudo para desfazer essa impressão). Mas ao contrário do que posa parecer, não é difícil ser amigo dele.

Sempre bem informado, pode parecer egocêntrico, mas nunca deixou de frequentar minha família, ser amigo próximo de minha mãe Elza (com quem mantinha longas conversas telefônicas, até o fim da vida dela.) Nunca deixou de me ouvir e apoiar. Foi ele quem fez a narração do único curta-metragem que dirigi (quando ainda não era famoso). E que vi mui as vezes comprar brigas por min, quando sabia ser eu injustiçado. Não só por min. Ney odeia injustiça e é capaz de ir ao presidente da república, ao Papa, na tentativa de corrigi-las. Ainda mais se a vítima ser seu amigo.

Pelos amigos ele te mente, acentuando qualidades que infelizmente não temos, os contatos que estamos longe de exercer (durante anos ele garantiu a todos, com a maior convicção, que eu era íntimo de Elizabeth Taylor). Também foi o melhor folho que eu conheci Nena, ou Dona Nena, era uma mulher muito especial. Com Ney, formava uma dupla imbatível Um começava uma frase que o Outro completava. Eram unha e carne, o mesmo espirito, talvez a mesma pessoa. Por isso o seu falecimento foi de tal forma marcante e, porque não confessar, traumatizante. Ney parecia ter perdido o rumo, fiado sem balizas. E posso entender porquê.

Ainda hoje, mesmo eu, ainda me vejo repetindo frases, ideias que a Nena me passou. De qualquer forma, nós já temos de volta o Ney no resplendor de sua melhor forma, de sua quase maturidade. Digo quase, porque acho que ele nunca vai perder esse jeito moleque, matreiro, cúmplice, entusiasta. Que é como dizia o título do livro era uma celebração. Do talento da amizade, da alegria.

De termos Ney na nossa Vida. Ney, uma introdução.

Rubens Ewald Filho

Homenagem Especial Curta Cris - Flávio Viegas Amoreira

Um facho de luz no caminho

Com qual galhardia transita da literatura á análise crítica, versando sobre a sociedade, seus matizes, costumes e cultura. Regozijo da alma, enquanto invólucro do imponderável Privilegiado intelecto a serviço do homem e da reflexão; afiada atenta da sociedade. Bastião da vanguarda luz do caminho para muitos. Em tua prosa, desvela-se aprofundada concepção do ser humano, em sua mais remotas dimensões.

Crítico da empáfia, desconstrutor da bazófia, baluarte da liberdade, amante da vida. Teus predicados valorizam tua saga nos espelha uma grandeza que, creio já se inscreve na história contemporânea. Da tua arte emerge nova consciência, da tua luta encoraja-se tantos outros, em defesa do amor, da razão. DO ser e do não ser. Grata é tua contribui cão com os nossos tempos.

Telma de Souza

Homenagem Especial - Oficinas Kinoforum

Se a expressão audiovisual tornou-se considerável mente mais acessível no final do século passado, a partir do advento dos equipamentos portáteis digitais (até então, era privilégio de uma infima minoria), em pleno alvorecer do novo século assistimos a ampliação dessa possibilidade em um grau jamais imaginado.

Uma das ramificações mais surpreendentes dessa explosão de imagens se dá nas desassistidas periferias das grandes cidades brasileiras, onde grupos de jovens, apesar da extrema carência material em que vivem, conseguem realizar filmes digitais nos quais registram sua realidade e expressam seu imaginário.

A viabilidade dessa produção se dá, em grande parte, graças a oficinas e workshops ministrados nessas localidades, resultando numa cinematografia peculiar, assinada por novos agentes sociais.

Uma das pioneiras iniciativas nesse sentido Promovi das desde 2001 pela Associação capitaneada pela produtora Zita Carvalhosa, em suas 50 edições. Mas ainda: as sessões prestigiadas por aproximadamente quatro mil foram as Oficinas Kinoforum de Realização Audiovisual. Cultural Kinoforum, entidade sem fins lucrativos as Oficinas já formaram centenas de novos realizadores cinematográficas que integram seu currículo já foram expectadores.

Estes números são muito expressivos, sem dúvida. Mas as Ofiinas Kioforum de Realização Audiovisual destacam-se também pela sua metodologia. Mais do que capacitar técnicos para o mercado de trabalho - objetivo louvável sob qualquer ponto de vista as Oficinas Kinoforum focam na criação e na reflexão de seus alunos. Leituras críticas das imagens que circulam nas salas de cinema e são difundidas pelas emissoras de TV permitem que esses jovens passem a ser criadores de perspectivas originais.

Experiente e bem sucedida profissional de cinema ( sua empresa, Cinematográfica Superfilmes, responde por relevantes títulos brasileiros em curta e longa metragem ) e importante agitadora cultural ( O Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo, que criou e dirige há 20 anos, é considerado mais importante no género na América Latina), Zita Carvalhosa completa, com as Oficinas Kinoforum de Realização Audiovisual um admirável leque de atuação, de responsabilidade entre cultura e a sociedade brasileira.

Privilegiada testemunha e seu parceiro desde final dos anos 1980, posso atestar o papel que essa convivência desempenhou nas minhas próprias atuações profissionais.

Esta homenagem do Curta Santos não poderia, ser mais oportuna.

Francisco Cesar Filho - Chiquinho Cineasta e Curador

Homenagem Especial - Edina Fuji - Quanta

"To no quase, mano velho" dizia o ator Joffre Soares na sequência final de "A honra e a vez" de Augusto Matraga, sob o olhar atento do diretor Roberto Santos, antes de gritar o corta! De longe, olhos astutos de menina, Edna Observava mais uma cena do que se tornaria um clássico do nosso cinema, sem saber que ali inaugurava, também, uma cumplicidade para sempre com a produção nacional.

Dona de uma postura clássica de primeira dama de um dos maiores parques industriais que ajudaria a desenvolver, levouo0 nome da Quanta a todo os cantos do pais. Iluminou os mais importantes filmes como parceira: longas, curtas, médias, vídeos; experimentais e lineares, de jovens iniciantes preenche daquela mesma paixão que continua a brilhar nos seus olhos a veteranos de todas as épocas e estilos.

O que mais impressiona a quem tem o privilégio do seu convívio, é a alegria, a delicadeza, a força de seu amor pelo trabalho que realiza, o entusiasmo da menina do interior que ela cultiva sem esforço, com a naturalidade das pessoas que nasceram de bem com a própria vida.

Irreconhecível, mas sem perder a ternura jamais, luta com veemência pelo progresso da atividade cinematográfica. Entre gruas gigantescas, estúdios grandiosos e potentes refletores, projeta sua sombra de guerreira como um D. Quixote de saias na defesa do cinema brasileiro e, imbuída dessa força, enfrenta todos os dragões se for necessário.

Querida por todos, apoia festivais, dos mais glamorosos aos mais resistentes, distribui prêmios que viabilizam muitas vezes a continuidade de talentos promissores, associa o nome de sua empresa a toda a classe de filme ou vídeo que certamente não se realizariam sem sua ajuda. E, assim perpetua sua permanência na história da nossa indústria ainda em crescimento e na nossa cultura.

Luis Carlos Lacerda - Cineasta e Amigo

Homenagem Especial - 75 anos do Cine Roxy

O cinema é mágico! Descobri essa magia aos 5 anos, quando meu pai , Francisco Campos, engenheiro químico, veio para Santos assumir os negócios de meu avô, Antonio Campos Junior.

Hoje para min, o cinema se confunde entre paixão e trabalho, e confesso que sou feliz porque trabalho com o que amo. Aprendi muito com os filmes, assim como aprendi com os livros.

Ambos contribuíam imensamente para minha formação.

O Roxy, desde a Sua inauguração há 75 anos, procurou acompanhar de perto as transformações tecnológicas que aconteceram no mundo. Para nós, não foi fácil sobreviver como o único cinema de rua. Na verdade, foi um grande desfio. Quando meu pai , que administrou o cinema desde se afastou, o Cinemark parecia decretar a falência dos os 35 anos, cinemas de rua do Gonzaga. O primeiro Multiplex surgiu no início dos anos 90, em 94, eu já tinha um projeto e fui procurar apoio.

Durante cerca de 10 anos. Lutei para que o Roxy abrigasse várias salas. Era um sonho, eu tinha vontade de fazer e sabia que, em Outros lugares, cinemas de rua haviam sobrevivido. No começo, apesar de meus amigos não terem coragem de dizer, sabia que me achavam louco.

Eles tinham receio de que eu perdesse tudo. Mas o tempo provou que eu estava certo e, hoje, vejo com entusiasmos o renascimento da Cinelândia Santista. Em Dezembro, o Roxy ganhará mais quatro salas. A teimosia venceu, sobrevivemos e, mais que isso, crescemos.

Os cinemas de Santos atraem um público que não se vê em lugar nenhum no mundo. O santista mantém a habito de ir ao cinema porque sempre respirou cultura. Iniciativas como as do Roxy e do Curta Santos só tem a somar para a cultura de nossa cidade. Somos parceiros do festival desde de o inicio porque acreditamos no cinema, porque acreditamos no festival, mas especialmente porque acreditamos nos santistas e em Santos.

Vida longa a nossa cidade, ao Roxy e ao Curta Santos!

Toninho Campos

Homenagem Especial - Maestro Gilberto Mendes

Feliz a cidade que pode contar comum génio em seu convívio. Gilberto Mendes, mais inventivo e influente compositor erudito brasileiro desde Villa-Lobos, é mais generoso artista que conheci em minha trajetória como escritor e testemunha da cena cultural brasileira. Não bastasse sua obra imorredoura, ainda foi criador do mais importante festival de vanguarda da América Latina, 0 "Musica Nova". Apesar do seu cosmopolitismo e reconhecimento internacional , nunca viveu por longo tempo distante de suas raízes telúricas em Santos, em nossa costa carregada de enigmas e ancestralidade dignas de seus escritores preferidos: Conrad e Borges. Apesar de ter exatamente o dobro de minha idade, com Mendes minha ligação é profundamente fraterna: somos contemporâneos do infinito, nos tratamos sem a hierarquia de mestre discípulo, temos a mesma cumplicidade com o que nos une com a mesma voracidade: a Arte. Nenhum artista santista foi tão representativo para nossa terra quanto Gilberto Mendes: ele Comunga com Vicente de Carvalho e Plínio Marcos do mesmo "sentimento atlântico do mundo" Sua ligação com o cinema é visceral quando da morte no mesmo dia de Bergman e Antonionni, falamos por horas ao telefone sobre o tanto esse gênios nos influenciaram até que o maestro Mendes interrompeu para cair em profundo pranto. Arte e vida estão nele amalgamados como num só corpo comprometido Com a beleza e a imanência do divino: sua existência é um relato da imaginação a serviço da sensibilidade.

Costuma dizer que é tão apaixonado por cinema quanto por música. Um passo preciso de Fred Astaire na "Roda da Fortuna" a interpretação de Orson Welles no "Terceiro Homem" ou 0 "Dr. Mabuse" de Fritz Lang são capazes para ele de comoção tão pungentes quanto acordes de Bach ou Stravinsky. Com mesmo apego pelo Oceano-Mar que nos envolve, a mesma fixação cinéfila, confesso ter sido um homem de sorte pela possibilidade de vivenciar essa Amizade com essa força da natureza: além de um ser humano ímpar, GiIberto Mendes já é um elemento natural tão expressivo quanto o romper das vagas ou a dança fugaz das nuvens: GiIberto Mendes é para nós Santistas, litorâneos e brasileiros, uma força da natureza. Se ele não existisse, seria criado por um Deus olímpico desses com lira e arpejos celestiais que ecoam na melodia deliciosamente caótica mol dando a harmonia das esferas. Na minha Santos imaginaria, utópica ilha onde todos poetizassem a vida e vivessem cada segundo como artista, todo dia seria dia de Curta Santos ao som de Música Nova, com regência sublime desse demiurgo de universo sonoro: Gilberto Mendes.

Flávio Viegas Amoreira - Escritor, Critico Literário e Jornalista

Homenagem Especial In Memorian — Rudá de Andrade

Rudá, Articulador da Cultura

Apesar de filho de Oswaldo de Andrade e Patrícia Galvão, a Pagu, duas figuras emblemáticas da cultura brasileira na década de trinta do século passado, Rudá de Andrade soube construir a sua própria identidade. Desde de cedo abraçou o cinema, atraído pela criatividade cinematográfica que começava a surgir na Itália pós-guerra, com o neo-realismo. Uma escola do fazer cinema que revolucionava o mundo do filme, ao trazer pela primeira vez de maneira inovadora para ocupar a tela, o povo na qualidade de protagonista.

Foi essa Europa ainda devastada pela hecatombe as segunda guerra mundial, mais que despontava através das imagens capitadas por artistas sensíveis que encontravam sua inspiração no novo realismo emanado do povo, que levou Ruda estudar em Roma, onde cursou o Centro experimental e Cinematográfico, tendo como colegas o argentino Fernando Birri, o Colombiano Gabriel Garcia Marques o Colombiano Gabriel Garcia Marques e os Cubamos Julio Garcia Espinosa e Tomas Cuitierrez Alea, entre tantos outros.

Logo que regressou ao Brasil em meados dos anos 50, Rudá encontrou a atividade cinematográfica paulista em pleno reboliço, sofrendo as consequências da fracassada tentativa de uma grandiosa indústria do cinema com ares Hollywoodianos, financiada pelos barões do café.

Com a solida formação adquirida na Itália, dês de que chegou em São Paulo, Rudá procurou se aproximar daqueles intelectuais conterrâneos que encaravam o cinema como a arte e cultura e com raízes na realidade brasileira. Deste modo, logo o jovem Rudá se engajou na labuta de promover o bom cinema e de criar estruturas para difundir a sétima arte.

Paulo Emilio Sales Gomes e Almeida Salles, que naquela época eram responsáveis pelas páginas mais lúcidas e brilhantes da cri tica e em ensaios cinematográfico da empresa paulista, foram, obviamente, o campo de pouso que Rudá procurava.

Desta aproximação surgi ria uma amizade para toda vida e uma colaboração de resultados salutares para a cultura cinematográfica de São Paulo, tendo como principal fruto a criação da Cinemateca Brasileira. Desde então, a presença dos três passou a ser uma constante não só nas inovações cinematográficas paulistas, como também no Festival de Brasilia do Cinema Brasileiro ou na Jornada de Cinema da Bahia. Já no inicio dos anos 60, vamos encontrar Francisco Luis de Almeida Salles na presidência da Cinemateca, Paulo Emilio Salles Gomes como conservador chefe e Rudá de Andrade, como conservador adjunto. Foi nesse período que teve início a minha colaboração com Rudá e uma amizade que duraria para sempre. Morava eu então em Praga, capital da Tchecoslováquia (Hoje em dia República Tcheca) quando fui surpreendido pela agradável visita de Rudá, que vinha me convidar para ajudá-lo a organizar uma semana de cinema Tchecoslováquia no Brasil.

Com o maior prazer e satisfação aceitei a tarefa e meses depois acontecia em São Paulo e Rio de Janeiro com extraordinário sucesso. O filme que marcou o maior êxito foi "Um dia, um gato" (1963) , de Vojetch Jasny.

Pouco depois, ainda embalo pelo sucesso que fortaleceu o intercâmbio cultural entre o Brasil e a Tchecoslováquia Socialista, Rudá novamente em vista a Praga, para propor um projeto mais audacioso, a realização em alguns capitais brasileiras de um grande retrospectiva do cinema Tchecoslovaco. Selecionamos 18 filmes das duas nações (tcheca e eslovaca ) na sede praguense da FILMEXPORT, abrindo a mostra com o clássico "Extase" (1932) de Gustav Machaty, primeiro sucesso mundial do Cinema Checo , sobre tudo pela da beleza erótica Heddy Lamar em Plano de nu frontal.

Foi uma empreitada arriscada, mas estávamos empolgados apesar das dificuldades para o transporte dos filmes. Afinal de contas, o volume era muito grande, pois eram atas e mais latas de pelicula em 35mm, o que tornava impossível o transporte por avião. A solução foi o transporte maritimo mas a Tchecoslováquia como pais continental, teve que embarcar os fiImes no trem, levando-os até Genova e dai para Santos de Navio. Tudo foi negociado, pensamos que o pior já havia passado e que faltaria somente trabalhar na realização da retrospectiva. Com tudo, enquanto os filmes atravessavam o atlântico, o inusitado acontecia no Brasil: o pais sofreu em primeiro de abril de 1964 0 Golpe Militar, que implantaria a ditadura de triste memória. No porto de Santos os filmes forâmen quadrados como material subversivo e apesar de todo o empenho de Rudá, que durante anos lutou para liberá-los, jamais foi possível remover a determinação tacanha das autoridades responsáveis. Infelizmente, nesse caso a persistência e diplomacia de Rudá foram em vão em compensação, como conta Alex Solmik O Rudá foi o génio que conseguiu arrancar grana dos militares, nos anos de 1960, para abrir uma escola de cinema onde empregaria uma porção de cineastas de esquerda, é claro. Este era o verdadeiro Rudá, empreendedor que ajudou a fundar a ECA a escola de cinema da USP que já tinha ajudado na fundação da Cinemateca Brasileira.

Depois veio a criar o IMS de São Paulo, ficando a frente de sua direção por mais de 10 anos. A partir de 1962 com surgimento da jornada de cinema da Bahia, os meus contatos com Rudá se intensificaram ale dos encontros periódicos para tratar do ensino de cinema nas universidades brasileiras ou para por em dia as questões das pesquisas cinematográficas nacional, passamos a ter um contato mais direto Com Rudá de Andrade Como do festival, membro do júri ou participante dos seminário do evento. A sua presença Setembro em Salvador, para participar com Halia ou muitas vezes com Rudazinho dos trabalhos da jornada, passou a fazer parte da atmosfera de confraternização que se completava no Moreira, regada com as saborosas cajuroscas. Agora que se aproxima a 360 Edição da Jornada de Cinema da Bahia, a ausência de Rudá será sentida profundamente pelos inúmeros ami gos freqüentado res do evento que ele tantas vezes prestigiou. Rudá de Andrade foi, cineasta, escritor, pesquisados, um bom fotógrafo, um conhecedor dos mistérios profundos do copo e da culinária, mas, sobre tudo, um árdua admirador e empreendedor da difícil arte de promover cultura para o povo sem injunções políticas partidárias.